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Por Mahomed Bamba*

Até que ponto a famosa frase de André Malraux de que o cinema é uma arte, mas também uma indústria aplica-se a todas as cinematografias do mundo? Ao mesmo tempo em que a dimensão econômica dos filmes é  inegavelmente aceita como parte integrante da experiência cinematográfica (inclusive pelos mais ferrenhos defensores de um cinema autoral), observa-se que as determinações do mercado atuam também como fatores que impedem o surgimento de outras linguagens de cinema.

Se fazer cinema pode parecer um luxo em algumas partes do mundo é porque a realização, a distribuição e a conservação de um filme requerem uma gama de recursos de que carece a maioria dos países do Terceiro Mundo. De todas as produções artísticas, o cinema continua sendo aquela em que a diversidade cultural mais dificilmente pode se expressar. Os filmes tornaram-se produtos culturais e, ao mesmo tempo, bens de consumo preciosos e dificilmente acessíveis a alguns públicos.

O cinema, pela sua natureza artística e industrial, é um desafio para as nações periféricas que, após a descolonização política e cultural, esforçam-se para ganhar uma outra batalha: a da apropriação da tecnologia da imagem.

Um breve panorama do cinema africano no universo dos cinemas periféricos mostra que os países africanos estão longe de ganhar essa batalha. A situação de subdesenvolvimento que sucedeu às independências políticas reflete-se de forma dramática no atraso em que se encontra a atividade cinematográfica em toda a África. O estágio de relativo desenvolvimento econômico notado em alguns países africanos ilustra a disparidade que caracteriza as situações em que se encontram as jovens cinematografias do continente negro. Enquanto alguns países, como Egito e África do Sul, esbanjam estruturas cinematográficas que datam de um século, a produção fílmica continua embrionária no restante da África subsaariana.

Não houve um processo de modernização no continente africano operando conjuntamente com a busca de um modelo econômico que alavancasse o surgimento de um mercado dessa indústria cultural (como ocorreu, por exemplo, na maioria das grandes nações latino-americanas e asiáticas). O cinema africano nasceu, portanto, por fórceps, ou, como disse Guy Hennebelle, “do nada”. Os primeiros esforços dos governos dos Estados recém-independentes na década de 1960 não foram suficientes para sustentar uma atividade cinematográfica em contextos de subdesenvolvimento, em que produtores e cineastas careciam de tudo. Com o passar do tempo, outras questões econômicas e sociais mais prementes foram sendo priorizadas e afastaram definitivamente as ações dos governos locais do apoio à produção cinematográfica.

As políticas culturais continuam sendo vistas como secundárias ou mesmo um luxo para as nações subdesenvolvidas e o envolvimento da iniciativa privada com os cinemas africanos éainda inexistente ou muito tímida para chegar a constituir uma alternativa à renúncia dos Estados no apoio às suas cinematografias.

Mas, apesar desse atraso histórico, não faltam cineastas africanos que, por meio de suas obras portadoras de uma visão de mundo e de uma particularidade estética e temática, vêm fazendo com que o continente negro possa participar, embora de forma tímida, da universalidade do cinema. O número de cineastas africanos continua crescendo, mesmo considerando as inúmeras dificuldades que assemelham a produção de um filme a uma via crucis. Muitos desses novos cineastas se identificam com os ideais de seus antecessores, mas não deixam de experimentar novos caminhos. Cada filme africano representa, assim, uma forma de afirmação, uma confluência de todas as sensibilidades e a salvaguarda da diversidade cultural.

E quando a diversidade cultural é transformada em dogma pela França e pela União Européia, e em conceito vital pela Unesco, é o cinema africano que sai ganhando, pois é graças aos organismos de financiamento ocidentais que as cinematografias do sul sobrevivem. Acordos de cooperação bilateral ou multilateral permitem aos cineastas africanos contornar os problemas de produção e distribuição, mesmo quando estes filmes continuam, lamentavelmente, tendo uma exibição restrita aos festivais que geralmente ocorrem nos países do norte. Apesar do caráter ideológico questionável deste tipo de implicação de um centro (Europa) nas culturas da periferia, não há dúvida que os esforços de alguns países ocidentais em sustentar parcialmente a atividade cinematográfica no sul, particularmente na África, têm o mérito de reafirmar, para os governos locais, a necessidade de colocar a cultura no centro dos esforços de desenvolvimento.

O cinema está longe de ser um luxo na África. Um cinema com ambições modestas, sem forçosamente se limitar a um cinema autoral, auto-sustentável no pólo da produção e da distribuição ou apoiado por esforços políticos e que seja proporcional à capacidade econômica de cada nação já é suficiente para atender às demandas das populações locais, cada vez mais sedentas por imagens. A produção de filmes em um determinado espaço geográfico resulta de uma problemática de afirmação cultural e de identidade. Mas a atividade cinematográfica auto-sustentável pode ser um fator de desenvolvimento econômico pela geração de empregos e de recursos indiretos advindos do setor. Basta conferir o fechamento de várias salas de cinema nas grandes cidades africanas e as conseqüências que isso acarretou no plano econômico e social. O papel preponderante dos pequenos revendedores de videocassetes e outros produtos  audiovisuais é um exemplo da vitalidade da indústria caótica e informal de vídeo na economia da Nigéria.

Neste início de século XXI, os cinemas africanos iniciam uma nova etapa na sua curta história, confrontando antigos e novos desafios. É o momento de se repensar e fazer um balanço das opções políticas e estratégicas que acompanham o seu desenvolvimento. Os textos que compõem este volume tentam apreender os cinemas africanos em termos de produção, distribuição, consumo e ideologia. Sendo assim, podem ser considerados contribuições teóricas inéditas, na medida em que analisam as cinematografias do continente negro sob a ótica da economia política, como poucas vezes foi feito. Apesar de existirem vários aspectos temáticos e ideológicos comuns aos filmes africanos, as gestões econômica e política do cinema apresentam diferenças de um país africano a outro ou de uma região geográfica a outra. Alguns textos procuram explorar essa realidade, a partir da descrição de um case nacional em particular. Outros tentam, ao contrário, abordar e discutir essa questão dentro de grupos de cinematografias nacionais, isto é, a partir de uma visão global ou regional. É, por exemplo, a particularidade da economia do cinema da África do Sul (pré e pós-apartheid) que está no centro do texto de Arnold Shepperson e Keyan Tomaselli. Os autores analisam a evolução e as mudanças da organização política da atividade cinematográfica da África do Sul, tendo o regime do apartheid como ponto de referência.

Se a África do Sul continua um caso à parte, é graças à infra-estrutura herdada dos tempos do apartheid. Com base em uma leitura histórica da indústria do cinema sul-africano, Shepperson e  Tomaselli mostram como, apesar das mudanças ocorridas após 1990, novos agentes no setor da produção, distribuição e exibição alteraram e reproduziram, ao mesmo tempo, relações e estruturas consolidadas durante os anos do apartheid. Isso teve como principal efeito a redinamização da atividade cinematográfica no país de Nelson Mandela e em todo o restante da África.

Diferentemente da África do Sul, onde a atividade cinematográfica parece ter uma base histórica e semi-industrial, os demais países africanos continuam à mercê da ajuda proveniente da cooperação cultural com a França e a União Européia. O ambicioso texto de Roy Armes traz informações interessantes e detalhadas sobre a situação da atividade cinematográfica nas quatro grandes áreas geográficas e culturais em que o autor divide a África. Ao se concentrar sobre o período pós-independência, Armes não somente identifica os fatores unificadores entre os cinemas do norte da África e do sul do Saara quanto aos modos de financiamento, como também faz uma análise minuciosa das idiossincrasias em cada caso, com base no maior ou menor compromisso dos governos locais com o cinema nacional.

Mesmo que a influência colonial justifique o envolvimento da França nas políticas cinematográficas de muitos países africanos, o Maghreb (formado pelo Marrocos, Argélia e Tunísia) tenta fomentar as suas próprias políticas, graças aos tímidos esforços dos governos locais em incentivar uma atividade cinematográfica contínua depois da independência. Quanto às “nações” da África ocidental francófona subsaariana, elas continuam dependentes do ímpeto e do financiamento da produção cinematográfica provindos da França. Essa ajuda funciona, segundo o autor, como parte da política do governo francês em manter estreitos laços culturais e econômicos com suas antigas colônias africanas. Todo o paradoxo e as contradições dos cinemas africanos encontram-se nessa dependência. Mesmo sendo uma experiência pós-colonial, os cinemas africanos perpetuam, de certa forma, muitos dos efeitos do neocolonialismo criticados há tempos pelas correntes mais radicais da teoria do cinema do Terceiro Mundo. Para os mais críticos quanto a esse modelo de financiamento, a África deveria romper com o cinema de cooperação, que tende a solapar as bases do surgimento de um cinema genuinamente africano mantido apenas pelos esforços dos governos locais. Para muitos autores, não resta dúvida: os efeitos dessas formas de ajuda aos cinemas africanos são mais nefastos do que benéficos. Portanto, urge pensar as cinematografias africanas em termos de economias políticas endógenas. É nesse espírito que Ngugi Wa Thiong’o equipara a “descolonização da mente” à descolonização dos recursos que permitam o surgimento de um cinema africano feito por africanos sobre a condição africana. Antes que se possa falar sobre o cinema africano, diz o autor, é preciso que haja recursos para a produção de filmes, sua distribuição e acessibilidade ao público africano. A tecnologia, segundo Thiong’o, pode ajudar a África nessa empreitada.

A câmera, enquanto tecnologia, deve estar a serviço do espaço público e da comunidade: “o cineasta africano não pode se dar ao luxo de usar a tecnologia para escapar ao domínio do pessoal, destituído de sua interação com o público. As experiências pessoais devem também ser vistas no contexto histórico em que se desenvolvem”. Em outras palavras, é a responsabilidade do cineasta, enquanto agente de transformação social, que é enfatizada nesta relação que Thiong’o estabelece entre a descolonização da mente e a posse da tecnologia do cinema.

Ao defender também a lógica da quantidade no cinema africano, o autor busca enfatizar a necessidade de uma aproximação dos filmes africanos de seu público. Essa lógica da quantidade sobre a qualidade no cinema africano, como bem mostra o texto de Françoise Balogun, é levada às últimas conseqüências pela indústria do vídeo na Nigéria e em Gana.

Em uma perspectiva que lembra a teoria do terceiro cinema, Ferid Boughedir, seguindo os traços da análise temática empreendida pelo crítico francês Guy Hannebelle, parte da relação entre o cinema africano e a ideologia para destacar não somente grandes temáticas e tendências recorrentes nos filmes africanos, mas também os valores ideológicos que suscitam. Enquanto os filmes históricos ostentam uma ideologia progressista, condenatória dos abusos do passado e invocadora de mudanças no presente, diz o autor, as comédias populares, principalmente os musicais, ensejam uma ideologia conservadora, principalmente com relação à condição da mulher africana. Mas, diferentemente das comédias de Nollywood, há filmes africanos que apostam nas comédias satíricas. São filmes portadores de uma ideologia progressista. A análise dos conteúdos dos principais filmes africanos por Boughedir tem o mérito de revelar pontos de descontinuidade e de ruptura entre as sucessivas gerações no cinema africano. Demonstra também que o cinema africano é cada vez mais confrontado com a problemática dos gêneros. Que gênero de filme convém às cinematografias do sul comprometidas com questões culturais e de identidade?

Seguindo uma linha de raciocínio semelhante, Manthia Diawara relaciona a existência de variantes e contradições entre as linguagens cinematográficas às ideologias no cinema africano. O autor considera essas contradições como reflexo das culturas políticas dominantes em cada região da África. Para Diawara, a compreensão dos diferentes modos de produção e distribuição é inseparável da compreensão das particularidades das culturas regionais herdadas da colonização.

Segundo ele, há muitas razões para explicar o fracasso de um cinema africano, como, por exemplo, a estrutura do Estado-nação na África: “No período de fin de siècle, torna-se claro que o Estado-nação pelo qual muitos africanos ainda lutam, matam e morrem, não é mais viável nem como unidade cultural nem como unidade econômica”.

A crônica falta de estruturas de produção e de exibição locais acaba transformando todos os filmes africanos em produtos de uma ideologia cinéfila e cineclubista? É esta dúvida que paira no ar quando se busca entender o impacto real dos festivais internacionais sobre a evolução dos cinemas africanos. De todas as cinematografias do Terceiro Mundo, o cinema africano é aquele que continua à procura de seu próprio público. O texto de minha autoria, dedicado ao papel dos festivais na história dos cinemas africanos, procura apreender a organização de eventos em torno dos filmes africanos como uma estratégia para dinamizar a sua circulação, mesmo sendo verdade que esses tipos de encontro não criam forçosamente um público africano.

O Festival de Ouagadougou, o Fespaco, tornou-se um evento e um fenômeno fundamental na história dos cinemas da África sub-saariana por ser a maior vitrine de muitos filmes antes mesmo de seus lançamentos. O Fespaco é também o reflexo da política cinematográfica de Burkina Fasso, a ponto de fazer desse pequeno país da África ocidental uma exceção em termos de implementação de políticas cinematográficas endógenas.

Distante do modelo de cinema autoral mantido por recursos de organismos internacionais e entregue às influências da cinefilia, surgem modelos alternativos de cinema na África. O caminho da salvação para todos os cineastas africanos seria o modelo de produção e distribuição informal experimentado na Nigéria ao longo da última década? Françoise Balogun aborda a indústria do vídeo em termos pragmáticos. Ela vê no nascimento e desenvolvimento do vídeo nigeriano a única forma de produção capaz de satisfazer a necessidade pantagruélica de imagens do país mais populoso da África negra. Ao refletirem a realidade e a identidade de seu contexto de produção e de consumo, os filmes nigerianos revelam toda a sua função social.

Tanto na Nigéria como em Gana, os produtores locais aceleraram a demanda e o consumo de filmes africanos por um público local, rompendo assim, com a prática de produzir filmes africanos para um público ocidental. Nigéria e Gana transformaram-se em dois grandes países produtores de filmes na África, a ponto de inundarem reciprocamente os seus mercados vizinhos com as suas imagens videográficas. A indústria do vídeo em Gana pode ser descrita em termos de “circulação regional de mídia”. Diante da supremacia da indústria nigeriana do vídeo, que inunda o seu mercado, os videomakers ganenses experimentam outras soluções. Essa resposta vem sob a forma de produção de filmes em vídeo feitos diretamente para, sobre e pela diáspora de ganenses morando no exterior, particularmente, na Europa. A vertente diaspórica da produção de vídeo em Gana pode ser considerada como uma resposta estratégica à “invasão” das produções nigerianas. Esse cinema itinerante ou de exílio de Gana não deixa de levantar questões interessantes e que ajudam a reproblematizar os conceitos de identidade, de nacionalismo, do local contra o global e do autóctone contra o estrangeiro.

Todos os textos aqui reunidos funcionam, portanto, como olhares cruzados sobre um mesmo objeto e trazem valiosos elementos de compreensão sobre a experiência cinematográfica na África. Vista sob o prisma da economia política, a aventura dos cinemas africanos se mostra tão diversificada quanto a realidade africana. O cinema na África está longe de constituir uma indústria; mesmo assim, determinações de ordem econômica não deixam de incidir sobre os seus rumos. Juntamente com o valor social e político dos filmes, estes fatores “extra cinematográficos” precisam ser estudados e entendidos.

*Texto de introdução do volume I – África, da coleção “Cinema no Mundo: Indústria, política e mercado”, uma coedição do Instituto Iniciativa Cultural e Escrituras Editora.

Saiba mais sobre a coleção

http://www.cenacine.com.br

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 Mariangela Nogueira | DivulgaçãoJoão José Reis lança livro nesta segunda, 22, na Livraria LDM

João José Reis lança livro nesta segunda, 22, na Livraria LDM

Desenterrar dos arquivos velhos imperiais a vida de um escravo negro que virou sacerdote, até então anônimo na historiografia brasileira, foi mais um trabalho primoroso do professor João José Reis, historiador catedrático da Universidade Federal da Bahia (Ufba). Trata-se do livro Domingos Sodré: um sacerdote africano – Escravidão, liberdade e candomblé na Bahia do século XIX, que o historiador lança, nesta segunda, dia 22, às 17 horas, na Livraria Multicampi LDM.
Com a reconstituição da vida de Domingos Sodré e de outros libertos, Reis mostra como escravos africanos conquistaram ascensão econômica, negociando e formando alianças sociais, tendo como armas os ritos trazidos de suas terras. O que a obra desvela é uma Bahia oitocentista com brechas à mobilidade social, apesar de ser predominantemente escravista.
  
Mas João José Reis também mostra, além da mobilidade, os mecanismos cruéis limitantes dela: as barreiras étnicas e raciais. “O caso de Sodré não é representativo dos libertos. A maioria deles vivia no limite da pobreza, nunca lograram a ascensão do personagem”, disse Reis. Segundo ele, para além da alforria, o negro liberto continuava a se defrontar com a sociedade dos livres. E isso também pesou na vida de Sodré. “Essa mobilidade não se traduziu em outros âmbitos da vida dele, não comprovou trânsito livre no mundo dos brancos”, explica.

SENHOR – Nascido na África, depois que veio para Salvador como escravo, Sodré conseguiu libertar-se de um senhor poderoso e virou, ele próprio, senhor de escravos. E a principal arma para  isso foi lançar mão da feitiçaria.

Serviço:

Lançamento do livro Domingos Sodré: um Sacerdote Africano – Escravidão, Liberdade e Candomblé na Bahia do Século XIX, de João José Reis | Segunda, 22, 17h | Livraria Multicampi LDM (71 2101-8007), Piedade, Centro  Salvador Bahia.

Fonte Jornal A Tarde

 

 

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V Colóquio Internacional Trabalho Forçado Africano
Brasil, 120 anos da abolição

Em 2008, a abolição da escravatura no Brasil completa 120 anos. Como se sabe, o Brasil foi o último país nas Américas a extinguir a escravidão, evidenciando a importância desta instituição nas ex-colônias portuguesas. Com o objetivo de fomentar e consolidar as redes de investigação neste campo, garantindo formas de difusão do conhecimento já produzido a esse respeito, a Secretaria de Cultura, através da Fundação Pedro Calmon, em parceria com o Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto (CEAUP), com o Programa de Pós-Graduação em História da UFBA, o Programa de Pós-Graduação em História da UEFS e a Pró Reitoria de Extensão da UNEB realizarão no período de 3 a 5 de novembro de 2008, a primeira edição no país do Colóquio Trabalho Forçado Africano.

O Colóquio Trabalho Forçado Africano que o Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto (CEAUP) vem organizando desde 2004, visa a promoção do diálogo entre pesquisadores e a divulgação para o público em geral das modalidades do trabalho forçado africano, desde o século XVI até a atualidade.

Com um foco comparativo, o Colóquio pretende evidenciar como e porque o trabalho forçado africano – sob qualquer uma das muitas modalidades que revestiu – foi estruturante da maioria das sociedades da América e da África. Por isso, considera-se que as pesquisas concernentes a todas as áreas geográficas nas quais esta relação social se desenvolveu, da América do Norte ao Transvaal são pertinentes a este Colóquio.

O tráfico de escravos em larga escala marcou profundamente a história do continente africano e das ex-colônias portuguesas. Por conta desse tráfico, grandes contigentes populacionais foram lançados numa aventura involuntária para a Europa, o Caribe e as Américas. O tráfico, a escravização de africanos e o trabalho forçado no pós-emancipação constituíram fases de um processo com muitas continuidades.

Considerando que em quase toda a África ocidental e central o tráfico atlântico durou até a década de 1860, que sociedades escravagistas se desenvolveram no interior das áreas afetadas pelo tráfico e que pouco tempo depois se instalaram nessas regiões os novos poderes coloniais, pode-se falar de um trabalho forçado africano ininterrupto. É sabido que durante o século XX, as administrações européias adotaram nos seus territórios africanos uma extraordinária tolerância com a manutenção do trabalho compelido.

É razoável prever que um número elevado de investigadores brasileiros sobre o tráfico atlântico e as formas de trabalho forçado durante e depois da escravidão possam partilhar os resultados das suas pesquisas com colegas europeus e africanos no V Colóquio Internacional Trabalho Forçado Africano. É também possível antecipar que, da perspectiva comparada, deverão igualmente esperar-se novas pistas de pesquisa, a explorar as temáticas do colóquio.

A realização do V Colóquio Internacional Trabalho Forçado Africano – Brasil, 120 anos de abolição também possibilitará que se reúna, pela primeira vez, a rede EURESCL, acrónimo de um projecto euro-afro-americano para o estudo do trabalho forçado africano, que engloba o CNRS francês bem como as universidade de Hull, Porto (CEAUP), Dakar e Toronto. Assim como nos anos anteriores, o Colóquio ainda resultará numa publicação com textos nessa área do conhecimento.

 Fonte : funceb

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A participação do sociólogo Severino Elias Ngoenha no  curso  promovido pelo –CEAO– Centro de Estudos  Afro Orientais da UFBA, foi de extrema importância, para todos aqueles que desejam  estudar as características da África negra contemporânea.

O que nós, brasileiros sabemos sobre estes países no momento atual? Como vivem o que pensam  estes povos que  orgulhosamente nos vagloriamos de sermos irmãos ? Não conhecemos nem aqueles que falam o português, imaginem aqueles cuja colonização foi feita por franceses e ingleses!

 Como pensamos  reunir sob uma mesma regra gramatical culturas vivas que desconhecemos? Mais uma vez ocorrerá a imposição dos mais fortes sobre os  desvalido economicamente e tecnologicamente falando?

As raízes culturais  que preservamos,  são imagens  estáticas, não acompanhamos o doloroso  processo de luta que a maioria dos paises africanos tiveram que enfrentar,  para conseguirem a independência e muitos ainda estão iniciando este  frágil e delicado caminho. Nada conhecemos salvo raras excessões.

 Em  uma  breve  viagem realizada a dois paises africanos no ano de 2000, durante as “comemorações” dos nossos  500 anos de descobrimento, tive a certeza de  que precisaríamos descobrir as  Áfricas e sua evolução. 

As imagens que tinha em minha mente, foram se desfazendo como os castelos de areia  que  construímos quando crianças. Pois, o que vi, foi um povo  lutando para resgatar sua identidade através da organização e sistematização de seu  patrimônio documental, da presevação, do restauro e da reconstrução de  seu patrimônio arquitetônico  além da construção de novas formas  e linguagens  contemporâneas.

Temos que nos esforçar e cobrar  para que os tratados diplomáticos entre o  Brasil e os países africanos, não sejam meramente comerciais, precisamos  restabelecer laços históricos sim , mas contruir uma história atual  e sair do plano imaginário.

A seguir, deixo uma matéria publicada hoje no jornal A Tarde, periódico que circula na capital baiana.


A Tarde Aqui no Brasil nós costumamos ter idéias estereotipadas sobre a África. Qual é então o Moçambique real? 



Severino Ngoenha – Moçambique hoje, segundo as grandes definições do FMI e do Banco Mundial é um país que democraticamente tem se saído melhor diante de anos de dificuldades, de conflitos, de guerras. Não falamos nem tanto de guerra civil, mas de um conflito ideológico que se desenrolava entre dois blocos. 


A Tarde | Como Moçambique saiu deste período difícil?



SV Hoje existe paz em Moçambique, existe uma democracia que funciona, existe uma economia que foi se liberalizando com todos os problemas do liberalismo que criam desproporções entre uma pequena massa rica e uma maioria pobre. Digamos assim que Moçambique é um país que avança com muitas dificuldades. É um país extremamente pobre com dificuldades decorrentes da sua estrutura econômica, mas é um país que tenta avançar. A democracia está lá e há informação livre.



A Tarde | Aqui no Brasil existem os problemas ligados às desigualdades que têm também um fundo racial, embora a discussão sobre racismo ainda gere muita polêmica. Qual é a situação atual de Moçambique em relação a esta questão ?

A Tarde | Como Moçambique saiu deste período difícil?



SV Hoje existe paz em Moçambique, existe uma democracia que funciona, existe uma economia que foi se liberalizando com todos os problemas do liberalismo que criam desproporções entre uma pequena massa rica e uma maioria pobre. Digamos assim que Moçambique é um país que avança com muitas dificuldades. É um país extremamente pobre com dificuldades decorrentes da sua estrutura econômica, mas é um país que tenta avançar. A democracia está lá e há informação livre.



A Tarde | Aqui no Brasil existem os problemas ligados às desigualdades que têm também um fundo racial, embora a discussão sobre racismo ainda gere muita polêmica. Qual é a situação atual de Moçambique em relação a esta questão ?



SNO Brasil tem uma percentagem de negros que quase chega à metade da sua população. Lá nós temos 99% de população negra. Temos alguns não negros que são brancos, mestiços, outros de origem indiana. O problema do racismo também está posto nos nossos países porque, infelizmente, o colonialismo português dividiu as comunidades para poder reinar sobre elas. Mas não há as mesmas proporções do Brasil porque os números são diferentes. Mas o que me preocupa é o discurso do racismo que está de volta depois de ter desaparecido durante muitos anos. É um racismo que está influenciado pelas práticas da África do Sul, mas sobretudo o discurso de etnicidade, de pertenças étnicas que é perigoso, porque vimos o que ele provocou no Biafra nos anos 60, em Ruanda. Penso que em Moçambique não se vai chegar a rupturas em termos de conflito e de guerra mas é preciso não ter petróleo no fogo para que amanhã a gente não tenha que se arrepender de conflitos e guerras.



Quando o Sr. fala em etnicidade se refere a quais grupos?



SNMoçambique é um país com muitas etnias que falam línguas e têm culturas completamente diferentes. A etnicidade seria a luta por hegemonia de determinados grupos étnicos. As etnias não são um problema, porque uma mãe não ensina o filho a ser inimigo de alguém porque é de outra etnia. O problema são os políticos que muitas vezes para poder encontrar espaço manipulam as pertenças étnicas e isso acaba criando os conflitos que ocorreram em muitos países africanos e mesmo na Europa.



Qual é a idéia que os moçambicanos têm da Bahia?

Aqui nós temos muito presente o discurso de proximidade com a África negra.

SN Eu penso que os intelectuais de lá têm uma idéia da Bahia, mas o Brasil que 99% dos moçambicanos conhecem é o vinculado pela mídia dominante, principalmente o que é mostrado pelas telenovelas. Não há um moçambicano que não saiba cantar as canções de Roberto Carlos como também não há nenhum moçambicano que não tenha visto a novela “A Escrava Isaura”. Daí que as relações raciais no Brasil são vistas de forma muito caricata. O negro está na cozinha a trabalhar, a limpar o chão e do outro lado está o mundo da burguesia branca. Infelizmente, o consumo cultural que temos do Brasil não vende a Bahia e suas preocupações culturais ou a luta contra a segregação e em busca de uma maior integração social.



O que o Sr. acha do acordo lingüístico firmado entre o Brasil e os outros países de língua portuguesa como Moçambique? 

 

SN Nós em Moçambique temos um apreço particular sobretudo pelo falar brasileiro. Somos favoráveis de fato à abertura do acordo que permita uma colaboração mais técnica. Nós estamos interessados também no fato de que o custo do livro do Brasil é muito mais barato que o custo do livro de Portugal. Assim nós poderemos ter mais cooperação na troca de informações, de material didático escolar. Isto é positivo. Agora o grande perigo deste tipo de medida, quando há países fracos e países fortes, é que os acordos se façam entre Portugal e Brasil e os países africanos tenham simplesmente que aderir aos acordos feitos pela parte de cima. O grande risco disso é vermos um imperialismo de retorno que é fundamentalmente português, mas que o Brasil de uma maneira indireta pode participar por ser o país luso falante mais importante em termos de número e mesmo quando falamos em termos de produção literária.



O governo brasileiro, principalmente nos últimos anos tem se esforçado para se aproximar mais da África negra. Em relação a Moçambique, como tem se dado a aproximação? 



SN Eu sei pouco sobre isso, pois neste momento vivo mais na Suíça do que em Maputo. Sei que existe um Centro Cultural Brasileiro em Maputo que tem feito um enorme trabalho para aproximar os dois países. Há investimento para a cooperação econômica. Agora há um grande perigo nisso tudo que é o de em vez de ser uma cooperação que beneficie o crescimento de um país sirva para sufocá-lo. Em Moçambique o frango brasileiro acaba matando a produção do frango local. Enquanto o frango moçambicano é fresco, o frango brasileiro é congelado. Neste sentido existe uma cooperação que não permite o crescimento de economia local. Os acordos entre Estados são ótimos mas é preciso ter uma vigilância real destes Estados para que eles não produzam novas formas de poder coloniais.



O Sr. veio falar sobre as cidadanias africanas.O que destacaria em relação a este tema?



SNO que eu quero dizer é que a história das cidadanias africanas é diferente. Nós, os africanos de uma maneira geral, lutamos para sermos cidadãoscontra a escravatura, que só acabou no fim do século XIX. Depois nós lutamos para dizer que já não éramos escravos, mas completamente cidadãos. Temos que ter todos os benefícios que a cidadania nos dá. Essa luta continuou nos EUA com Martin Luther King, Malcom X, continua com Angela Davis e hoje é a luta também no Brasil. Por isso as ações afirmativas. A guerra para sermos cidadãos completos continua ainda hoje. Nós africanos lutamos para sermos independentes, para termos cidadania africana a partir dos anos 40 e hoje somos todos independentes. É um fato. Mas sermos independente não se esgota em ter bandeira e passaporte. É preciso termos condições sociais e econômicas para sermos responsáveis por nossas próprias vidas. Essa é a batalha comum em todos os países africanos mas de certa maneira é também a batalha comum entre os africanos e os afrodescendentes que se encontram em situação de marginalização em relação aos espaços cidadãos que nos pertencem.



O Sr. tem formação em teologia. Qual é a situação religiosa de Moçambique?



SNAs igrejas depois de uma situação difícil, numa época marxista, têm um espaço de participação muito grande. Elas mobilizam-se e não é só a Igreja Católica, mas as igrejas protestantes. O Islã participa de um pacto social sobretudo no aspecto de moralização da sociedade. Por ter acontecido muitas rupturas ligadas ao fim do colonialismo, do marxismo, conhecemos hoje uma dimensão moral extremamente difícil. Temos uma pequena incidência de um capitalismo que faz com que o pouco dinheiro que nós temos seja concentrado nas mãos de um pequeno número de pessoas. E,quando há uma desigualdade muito grande, como acontece na Bahia, há também violência. A violência começa com pequenos roubos e acabam em violências bem mais manifestas. Então as igrejas têm desempenhado um papel importante na remoralização da sociedade.



E os cultos ancestrais são muito fortes?



SNNa região sul do Moçambique, o cristianismo praticado foi de natureza quase a tirar tudo aquilo que eram os cultos locais, mas eles não desapareceram completamente. O sincretismo que existe aqui na Bahia entre o catolicismo e o candomblé para nós se manifesta de uma maneira diferente. Quem é cristão no domingo durante a semana pratica outras formas de cultos ancestrais, mas dificilmente as duas ao mesmo tempo. São pessoas que se dividem em dois espaços, mas não conseguem aglutinar os dois movimentos ao mesmo tempo.

 

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Espetáculo: Magia Negra

Foto: Octávio Remédios

 

 

Acontece até o dia 4 de setembro o Módulo de Circulação do Festival de Teatro Lusófono, promovido pela Fundação Cultural do Estado da Bahia (FUNCEB). No espaço Xisto Bahia, serão apresentados três espetáculos e duas oficinas de teatro e dança africanas, trazidas a Salvador.

Nesta segunda-feira dia 1, no espaço Xisto Bahia, às 10h acontecerá a abertura do evento quando acontece um bate-papo com os grupos Teatro Fórum de Moura (Moçambique e Portugal) e Companhia Teatro de Pesquisa Serpente (Angola), aberto a artistas e estudantes. 

 

Espetáculo: O esqueleto
Foto: Mariana Lança

 

As peças Magia Negra e O esqueleto do Cozinheiro Akli, do Teatro Fórum de Moura (Moçambique), e Nojo, do Grupo Teatro Pesquisa- Serpente (Angola) serão apresentadas no mesmo espaço.

 

Espetáculo: Nojo
Foto: António Custódio Cali

 

Com o intúito de criar um intercâmbio contínuo da produção teatral de língua portuguesa, além das apresentações, a ação viabiliza oficinas teatrais gratuitas ministradas pelos artistas africanos, voltadas para atores profissionais e estudantes de artes cênicas.

Prestigie este evento.

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