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Os Negros no Pará
Prof. Leonardo Castro
Acesse o site para se aprofundar no tema

http://parahistorico.blogspot.com.br/2009/02/os-negros-no-para.html

No Pará, a defesa dos indígenas pelos missionários, defendendo a liberdade dos nativos, criou as condições para a importação de escravos africanos para o Estado do Pará.

Além disto, como a região amazônica a ser explorada era imensa, seja para a agricultura ou pela coleta de produtos de origem florestal necessitava-se de um maior número de força de trabalho para a região. Desta forma a mão-de-obra na região amazônica se apresentava como uma problemática para os colonos. Em Portugal já se utilizava a mão-de-obra escrava africana há séculos: a dos negros ou a de árabes do norte da África. Desde o início da colonização do Grão-Pará houve a necessidade de resolver problemas de mão-de-obra e Portugal buscou o problema com a escravidão negra africana. Na Amazônia, o número de escravos negros não chegou a ser tão numerosos quanto em outras regiões do Brasil. Isto devia-se ao fato de que a atividade básica da região – o extrativismo florestal – exigia o conhecimento da floresta amazônica e os negros não a conheciam.

Entretanto, a sociedade colonial existente na Amazônia portuguesa, ao longo dos séculos XVII ao XIX, não se limitava a atividades coletoras e comerciais das “drogas do sertão” e do uso da mão-de-obra indígena, desta forma a mão-de-obra africana desempenhou diversas atividades na região do Grão-Pará e Maranhão. Mas foi somente com a criação da Companhia Geral do Grão-Pará e Maranhão (1755-1778), visando o estabelecimento da política pombalina de fomentar as atividades comerciais na Amazônia, que as cifras dos cativos traficados entre a África e a Amazônia portuguesa aumentam significativamente. Entretanto, isso não irá dar conta totalmente da carência por trabalhadores escravos na região.

As nações africanas que abasteceram o tráfico na região entre o século XVIII e nas primeiras décadas do XIX foram os bantos, o grupo Sudanês e nações do grupo Guineu-Sudanês, além de outras indicações étnicas consideradas duvidosas.

A maioria da população de escravos negros presentes eram originados diretamente da África, pois o número de escravos nascidos na região ainda era pequena. Neste contexto, houve a presença dos cativos africanos desempenhando várias atividades em diversas regiões do território amazônico e do Grão-Pará como a presença africana no Baixo Tocantins na coleta das drogas do sertão; no Marajó com o trabalho na criação de gado; no Baixo Amazonas, onde a coleta do cacau representava a principal atividade econômica no século XIX; na Ilha das Onças no trabalho de artesanato de cerâmica; além da presença de escravos no próprio espaço urbano da capital paraense. De fato, o trabalho escravo africano na região amazônica possuiu grande importância para a economia regional.

Os negros, aqui escravizados, foram utilizados para trabalhar na lavoura de cana-de-açúcar, em engenhos como o Engenho do Murucutu em Belém e o Engenho do Cafezal em Barcarena.

Fonte: http://caminhos-historia.blogspot.com.br/2011/11/o-negro-no-amazonas.html
Profa. Arlete Anchieta (CDB/FOPAAM)
Foto: Maurílio Sayão.
No primeiro dia da Semana da Consciência Negra da Uninorte, a coordenadora geral do Fórum Permanente dos Afro-Descendentes, Profa. Arlete Anchieta, proferiu uma palestra sobre o movimento negro no Amazonas.
A palestra inicia-se homenageando uma figura conhecida aqui nesse blog, o intelectual e militante negro Nestor José Soeiro do Nascimento (1947-2003). Um dos pioneiros do movimento negro no estado do Amazonas, hoje quase esquecido pela maioria da população. Fundou a primeira entidade política negra local que se tem notícia, o Movimento Alma Negra (MOAN) no final dos anos 60.

Nestor José Soeiro Nascimento
Foto: Clóvis Eugênio/ Arquivo Em Tempo.
Muitos não viam necessidade em um movimento negro no Amazonas, onde a presença negra é quase mínima. Mas isso é um mito: a historiografia amazonense local tem combatido essa lenda criada pelos historiadores tradicionais, demonstrando o peso da escravidão africana na região. Arlete nos apresenta então um pequeno histórico sobre esta instituição no Amazonas: a origem dos escravizados, as rotas que seguiam para chegar na província, as ocupações em que eram empregados etc.
A presença negra tem um espaço todo seu na cultura amazônica e ele não é pequeno. A professora nos lembrou da origem negra da festa mais popular do Amazonas: o Boi Bumbá. Além disso, mencionou outras tantas manifestações culturais como a capoeira, o tambor de Mina, o samba etc. Não só manifestações culturais como também personagens conhecidos como a mãe-de-santo de São Jorge Joana Galante, o capoeirista Mestre Vermelho, o ex-secretário de saúde Henrique Mello e o famoso governador dos tempos da Belle Epóque Eduardo Ribeiro, dentre outros.

Vista panorâmica da Praça 14 nos anos 70
Foto: Cassius da Silva Fonseca.
A presença negra também se configura no traçado urbano de Manaus: os tradicionais bairros negros como Praça 14 de Janeiro, Seringal-Mirim (hoje Nossa Senhora das Graças), Morro da Liberdade, São Jorge etc. Hoje, estes bairros deixaram de ser redutos exclusivamente da cultura negra. A própria cultura negra está se irradiando por outros bairros como o Zumbi, Cidade Nova, Japiim, de história mais recente.
Logo, podemos concluir que a presença negra não é tão mínima assim quanto se imaginava. O objetivo do movimento negro é justamente trabalhar esta identidade, no sentido de valorizá-la. Enquanto a história oficial inculcou na cabeça de toda a população que não há quase negros no Amazonas, o movimento negro aqui tem o dever de contestar isso através não só de uma revisão historiográfica como também de ações que reafirmam a identidade negra.
E nesse tópico, a Profa. Arlete começa a falar dos movimentos negros no estado:
-Movimento Alma Negra (MOAN) fundado por Nestor Nascimento em meados dos anos 60 e sendo extinto alguns anos depois;
-Movimento Orgulho Negro (MON), criado nos anos 80 por antigos militantes do MOAN e moradores da Praça 14, que nos anos 90 se transformaria em Associação do Movimento Orgulho Negro do Amazonas (AMONAM);
-Movimento Afro-Descendente do Amazonas (AFROAMAZONAS), criado em fins de 2006, para reunir as lideranças dos demais movimentos negros da região, principalmente para divulgar suas opiniões.
-Fórum Permanente de Afro-Descendentes do Amazonas (FOPAAM), fundado em 2000 para congregar as demais entidades negras em seu bojo. Instituição da qual a professora Arlete Anchieta faz parte na condição de coordenadora geral.
O FOPAAM tem uma ligação com mães e pais de santo, mestres de capoeira, cantores de hip-hop e até quilombolas do Amazonas. Sim, no Amazonas existem quilombos (ao todo 15 comunidades), mas a professora mencionou o caso específico da comunidade de Novo Ayrão, onde o FOPAAM vem acompanhando todo o seu processo de legalização.
O próximo tópico da palestra foram as polêmicas políticas de ação afirmativa como as cotas raciais nas universidades, a legalização dos quilombos, o Estatuto da Igualdade Racial e o ensino de História da África nas salas de aula, por exemplo. Segundo a professora, a intenção não é revanchismo, mas tentar equilibrar uma condição social imposta por 300 anos de escravidão: a marginalização do negro. O preconceito é apenas um dos obstáculos que o negro brasileiro tem de enfrentar para poder ascender socialmente: entre os demais estão a falta de uma educação de qualidade e a baixa renda nos empregos. São medidas para afetar esse status quo.

Enfim, como vocês podem perceber, foi uma palestra muito proveitosa e esclarecedora. O estilo descontraído da Profa. Arlete também ajuda e muito que todos se interessem mais por esse tema. Ao meu ver, a Semana de Consciência Negra não poderia ter começado melhor.
Postado por Vinicius A. Amaral às 22:00
Marcadores: Amazonas, Cultura Afro-Brasileira, História, Universidade

 

Fonte: A TARDE-

O Centro Cultural da Irmandade Nossa Senhora da Boa Morte, localizado no município de Cachoeira, a 110 km da capital baiana, foi reinaugurado nesta sexta-feira, 15, após passar por reforma e restauração feita pelo Governo do Estado, por meio do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac).

 

A iniciativa visa a preservação da cultura afro-brasileira na Bahia e a valorização da tradição no município de Cachoeira, por isso, a entrega do equipamento cultural fez parte da programação da tradicional Festa da Boa Morte, cujo ponto alto se dá nesta sexta. Além da capela, quem visita o local, que dispõe de quatro pavimentos climatizados e itens de acessibilidade, como rampas e um elevador, tem a possibilidade de rever trajes já utilizados em procissões e festas, e ainda uma galeria de fotos. Símbolo de resistência e fé, a Irmandade da Boa Morte é composta por 23 mulheres, todas acima de 50 anos e descendentes de escravos.

 

Fonte: El Norte.ec

negritosIBARRA. ¿Sabes qué se celebra este domingo? preguntamos a Dayra Chalá, unaniña de 6 años.
“Es el Día del Negro”, dijo Dayra, que estudia tercer año de Básica en la escuela Pedro Claver, de Carpuela, comunidad que forma parte del Valle del Chota.

Celebración. En 1997, el Congreso Nacional,  declaró al primer domingo de octubre como el Día del Negro Ecuatoriano y a Alonso de Illescas como héroe nacional.  

Criterios.  José Chalá, secretario general de la Corporación de Desarrollo Afroecuatoriano, Codae, manifestó que hace 510 años “somos parte de las Américas” y que la celebración es el  reconocimiento de la presencia afrodescendiente y su aporte a la construcción de  Ecuador. 
Chalá no habla del Día del Negro; él afirma que hoy se celebra el Día de la  Afroecuatorianidad.
“La palabra negro es un invento desde la colonia para degradar la condición humana de las mujeres, hombres y niños, de procedencia africana que fueron esclavizados”, recalcó. 
A través de la Codae, entidad adscrita a la Presidencia de la República, José Chalá piensa que se fortalece el Estado intercultural y plurinacional, con políticas públicas.
A través de la campaña ‘Identifícate orgullosamente Afrodescendiente’ en el censo de noviembre de 2010, se impulsó la pregunta de autoidentificación, en la que los afrodeecuatorianos se reconocieron como tales, a diferencia de lo que sucedió en el censo de 2001. 
1 millón 41 mil 559 personas de autoidentificaron como afroecuatorianos en el país, representando al 7,2% de la población nacional. Mientras que en el censo de 2001 solo se reconocieron como afrodescendientes, 604 mil  habitantes.

Actualmente, se espera el segundo debate de la Ley Orgánica de los Derechos Colectivos del Pueblo Afroecuatoriano, en la que, entre otros capítulos, se habla del Conocimiento y saberes ancestrales, Patrimoniocultural y etnoeducación.   
En 2009, el presidente Rafael Correa aprobó el Decreto 60, en el que se establece una política pública para “eliminar la discriminación racial y la exclusión étnica y cultural”.
También se decreta que, en todas las instancias del Estado se procurará el acceso laboral de afroecuatorianos, indígenas y montubios. También considera tomar en cuenta a personajes destacados en plazas, monumentos ynombres de calles.  
En Carpuela se colocó un monumento en homenaje a Milton Tadeo, pionero de la música bomba y una calle lleva su nombre. En la Universidad Andina Simón Bolívar, existe un vitral con la imagen de la choteña FernandaBarriga, que acompañó a Simón Bolívar en sus últimos días, pero de esto no se aprende en las aulas de clase.  

Eventos. Hoy se realizarán varias actividades en Ibarra y La Concepción para celebrar el Día de al Afroecuatorianidad.
En La Concepción, la Federación de Comunidades Negras de Imbabura y Carchi, Feconic, organiza  una misa afro y la presentación de grupos locales de bomba.
Mientras que, en Ibarra, la Fundación Piel Negra, que inició ayer los festejos, realizará la feria Afrochoteña desde las 10:00 en el parque de la Familia. 
Se prevé la presentación de grupos como: Marabú, Percusión Latina, Generación 2000, Auténticos del Valle, Inquietos de la Bomba, entre otros. El evento es gratuito. 
Carlos Andrade, integrante de Piel Negra, recordó que la celebración comenzó en Ibarra hace 13 años. Piel Negra es el primer grupo de jóvenes afrodescendientes que nació para visibilizar al pueblo afroecuatoriano. 
“No se trata de emitir solo el discurso negativo de la esclavitud, sino de fomentar un grupo organizativo… Estamos aquí y ahora miramos para adelante, con respeto, tolerancia e interculturalidad”, enfatizó Andrade.

Fonte: Fundação Palmares

Jorge da Silva nasceu em 1937 e se popularizou com um dos grandes nomes da produção cinematográfica afro-brasileira no Brasil. Sua carreira começou nas peças do Centro Popular de Cultura da UNE e se encorpou no cinema, no qual se tornou um dos maiores expoentes da cultura afro-brasileira. Estreou em 1962, em “Cinco Vezes Favela”, um dos no marcos do Cinema Novo. Fundador do Centro Afro Carioca de Cinema, Zózimo realizou três curtas, cinco medias e um longa-metragem, todos com foco na cultura afro descendente e na luta contra as desigualdades.

Fez mais de 30 filmes, incluindo clássicos como “Terra em transe”, de Glauber Rocha”, “Compasso de espera”, de Antunes Filho” e “Grande sertão”, de Geraldo Santos Pereira. Seu filme mais conhecido, no entanto, é um documentário de 1988 intitulado “Abolição”, com entrevistas de personalidades sobre o centenário da abolição.

O apresentador Chacrinha o chamava de “o negro mais bonito do Brasil”. Em 1969, Bulbul foi par romântico de Leila Diniz na novela “Vidas em conflito”, da TV Excelsior”. O escândalo fez com que a censura da ditadura militar vetasse a novela. Aproveitando-se da polêmica, o estilista Dener convidou Zózimo para desfilar, tornando-o o primeiro manequim de uma grande grife brasileira.

Em 1974, estreou como diretor com o curta em preto e branco “Alma no Olho”, uma reflexão da identidade negra por meio da linguagem corporal. Zózimo aproveitara os negativos que sobraram do filme de Antunes Filhos para rodar seu curta-metragem. Os integrantes da censura achavam que a obra tinha tom “subversivo” e o chamaram para depor. Perguntaram sob ordem de quem ele havia feito tão sofisticado, imaginando que chegariam a uma complexa mente comunista. “Sob ordens do amigo e poeta Vinicius de Moraes”, respondeu Zózimo. Em 2010, a convite do governo do Senegal, Zózimo fez o média- metragem “Renascimento Africano”, que mostra o país nas comemorações dos seus 50 anos de independência.

Bulbul morreu no dia 24 de janeiro de 2013, aos 75 anos, no Rio de Janeiro.

 

Nei Lopes

O juiz Eugenio Rosa de Araújo, da 17ª Vara Federal do Rio de Janeiro, rejeitou a retirada da internet de 15 vídeos contra o candomblé e a umbanda, alegando que os cultos afro-brasileiros “não constituem religião”, pois não se baseiam em apenas um livro nem têm apenas um Deus. Os vídeos foram postados por representantes de igrejas evangélicas. No artigo abaixo, o escritor Nei Lopes explica os fundamentos dos cultos de origem africana e seu caráter religioso.

Ritual de iniciação das filhas-de-santo. Bahia, Brasil, 1951. Fotografia de José Medeiros/Acervo IMS

 

Em junho de 1993, a Suprema Corte dos Estados Unidos garantiu aos praticantes de cultos de origem africana o direito de sacrificar animais em suas cerimônias religiosas. Esse relevante fato histórico deveu-se, certamente, à articulação das casas de culto de origem cubana estabelecidas no país a partir da década de 1950, as quais na década de 1970 já tinham, entre si, a Church of The Lukumi Babalu Ayé, a qual se propunha, quando de sua fundação, a ter sede, escola, centro cultural e museu, para sua comunidade e público em geral. Na contramão de conquistas como essa, no Brasil atual chega-se a negar aos cultos afro-originados até mesmo a condição de religiões.

Filosofia. Em 1949 era publicado em Paris o livro La philosophie bantoue, obra em que o padre Placide Tempels dava a conhecer o resultado de suas pesquisas de campo realizadas no então Congo Belga. Contrariando toda uma concepção preconceituosamente negativa a respeito do pensamento dos povos africanos, o livro revelava a existência, entre os pesquisados, de uma filosofia baseada na hierarquia das forças vitais do Universo, a partir de uma Força Superior. Assim, quanto aos seres humanos, aprendia o missionário, entre outros postulados, que todo ser humano constitui um elo vivo na cadeia das forças vitais: um elo ativo e passivo, ligado em cima aos elos de sua linhagem ascendente e sustentando, abaixo de si, a linhagem de sua descendência. Consoante esses princípios, todos os seres, vivos ou mortos, se inter-relacionam e influenciam. E a influência da ação de forças tendentes a diminuir a energia vital se neutraliza através de práticas que façam interagir harmonicamente todas as forças criadas e postas à disposição do homem pela Força Suprema.

Meio século depois, outro missionário, o padre espanhol Raúl Ruiz Altuna, pesquisando a partir de Angola, conseguia estabelecer outra hierarquia, traduzida nos seguintes ensinamentos:

Força Suprema reconhecida pelo pensamento africano corresponde ao Ser Supremo das religiões monoteístas. Criador do universo e fonte da vida, esse Serinfunde respeito e temor. Mas é tão infinitamente superior e distante que não é cultuado, ou seja: não pode nem precisa ser agradado com preces nem oferendas. Abaixo desse Ser situam-se, no sistema, seres imateriais livres e dotados de inteligência, os quais podem ser gênios ou espíritos.

Os gênios são seres sem forma humana, protetores e guardiões de indivíduos, comunidades e lugares, podendo temporariamente habitar nos lugares e comunidades que guardam, e também no corpo das pessoas que protegem. Já os espíritos são almas de pessoas que tiveram vida terrena e, por isso, são imaginados com forma humana. Podem ser almas de antigos chefes e heróis, ancestrais ilustres e remotos da comunidade, ou antepassados próximos de uma família.

Ao contrário do Ser Supremo, gênios e espíritos precisam ser cultuados, para que, felizes e satisfeitos, garantam aos vivos saúde, paz, estabilidade e desenvolvimento. Pois é deles, também, a incumbência de levar até o Deus supremo as grandes questões dos seres humanos. Assim, já que contribuem também para a ordem doUniverso, eles devem sempre ser lembrados, acarinhados e satisfeitos, através de práticas especiais. Essas práticas, que representam um culto em si, podem, quando simples, ser realizadas pelo próprio interessado. Mas, quando complexas, devem ser orientadas e dirigidas por um chefe de culto, um sacerdote.

Dentro dessas linhas gerais, segundo entendemos, foi que se desenvolveu a religiosidade africana no Brasil e nas Américas.

Relevância. Os estudos dos padres Tempels e Altura desenvolveram-se entre povos do grupo Banto, do centro-sudoeste africano. Mas outros estudos, inclusive de sábios e cientistas nativos, nos deram conta de que, embora as religiões negro-africanas tenham suas peculiaridades, todas elas comungam de uma ideia central, a da inter-relação entre as forças vitais, sendo vivenciadas segundo princípios comuns.

Por conta dessas formulações, em 1950, no texto Philosophie et religion des noirs(revista Présence Africaine, nº especial 8-9), o antropólogo francês Marcel Griauleprimeiro indagava se seria possível aplicar as denominações “filosofia” e “religião” à vida interior, ao sistema de mundo, às relações com o invisível e ao comportamento dos negros. Perguntava-se, ainda, sobre a existência de uma filosofia negra distinta da religião e de uma religião independente, de uma metafísica, enfim.

Ao final de sua indagação, o cientista afirmava a existência de uma verdadeiraontologia (parte da filosofia que estuda a existência) negro-africana, concluindo pela antiguidade do pensamento nativo, nivelando algumas de suas vertentes a concepções filosóficas asiáticas e da Antiguidade greco-romana; e ressaltando a necessidade e a importância do estudo desse pensamento. Quatro décadas depois, o já citado Altuna, fazendo eco a Griaule, afirmava: “Basta debruçarmo-nos sobre esse conjunto de crenças e cultos para encontrar uma estrutura religiosa firme e digna”.

Definição. O termo “religião”, segundo N. Birbaum, referido no Dicionário de Ciências Sociais publicado pela Fundação Getúlio Vargas, em 1986, define um conjunto de crença, prática e organização sistematizadas, compreendendo uma ideia que se manifesta no comportamento dos seguidores. Daí aferimos que toda religião se define, em princípio, por um culto prestado a uma ou mais divindades; pela crença no poder desses seres ou forças cultuados; e em uma liturgia, expressa no comportamento ritual; e finalmente pela existência de uma hierarquia sacerdotal.

Pelo menos desde meados do século XIX, as religiões chegadas da África ao Brasil, apesar de todas as condições adversas, conseguiram recriar, no novo ambiente, as crenças e as práticas rituais de sua tradição ancestral, dentro dos princípios científicos que definem o que seja religião.

Na própria África já se distinguia, por exemplo, o feiticeiro (ndoki, entre os bantos), agente de malefícios, do ritualista (mbanda ou nganga), manipulador das forças vitais em benefício da saúde, do bem-estar e do equilíbrio social de sua comunidade. E noBrasil, como em outros países das Américas, as diversas vertentes de culto chegaram a tal nível de organização que constituíram, de modo geral, categorias sacerdotais altamente especializadas. Por exemplo, no candombléum babalorixá(“pai daquele que tem orixá”, e não “pai de santo”, como se traduziu derrogatoriamente) não tem a mesma função de um “babalaô” (“pai do segredo”), responsável por interpretar as determinações do oráculo Ifá. Uma equede(sacerdotisa que atende os orixás quando incorporados) não tem as mesmas funções de uma iá-tebexê (a responsável pelos cânticos rituais). Da mesma forma que umaxogum (sacrificador ritual) não tem as mesmas funções de um alabê (músico litúrgico), por exemplo.

As religiões de matriz africana no Brasil, em suas várias vertentes, praticam uma liturgia complexa, que compreendem rituais privados e públicos. Nas práticas privadas, todo ritual se inicia pela invocação nominal dos ancestrais, remotos e próximos, dos fundadores do templo, em listas tão mais longas quanto mais antigo for o“fundamento” da casa. Nas festas públicas, notadamente no chamado candomblé jeje-nagô, oriundo da região africana do Golfo do Benin, as divindades (orixás ou voduns) se manifestam numa ordem rigorosamente obedecida, da primeira à última a entrar na roda das danças. E por aí vamos.

Constitucionalidade. Não é o monoteísmo que caracteriza uma religião. Se assim fosse, as religiões orientais como o hinduismo, o taoísmo etc. não seriam como tal consideradas. Muito menos o é a circunstância de as práticas religiosas serem ou não baseadas em textos escritos. A propósito, o historiador nigeriano I.A. Akinjogbin, em artigo na coletânea Le concept de pouvoir em Afrique (Paris, Unesco, 1981), assim se manifestou: “O conhecimento livresco tem um valor formal e importado, enquanto o saber informal é adquirido pela experiência direta ou indireta. Os conhecimentos livrescos não conferem sabedoria (…) O ensinamento tradicional deve estar unido à experiência e integrado à vida, até porque há coisas que não podem ser explicadas, apenas experimentadas e vividas”.

Vejamos, em conclusão, que toda a tradição africana de culto aos orixás, da qual noBrasil se originaram principalmente o candomblé da Bahia (nagô e jeje), o xangô pernambucano, o batuque gaúcho e a umbanda fluminense, tem uma base filosófica. Esse fundamento é, em essência, o vasto conhecimento que emana da tradição iorubana de Ifá, o oráculo que tudo determina, em todos os momentos da vida de uma pessoa, de uma família, de uma cidade, de uma nação etc. Da tradição de Ifá é que vêm, por exemplo, a origem dos orixás, sua mitologia, suas predileções, suas cores etc. O popular jogo de búzios é uma forma simplificada de consulta ao oráculo.

Esse corpo de doutrina, compreendendo muitos milhares de parábolas, foi transmitido de geração a geração entre os antigos babalaôs, na África e nas Américas. E nos tempos atuais, embora não unificado, já começa a ter circulação inclusive na internet.

Pois essa tradição remonta a muitos séculos; e sua história se conta a partir do momento em que Oduduá, o grande ancestral dos iorubás, cuja presença histórica, no século XII d.C., é atestada cientificamente (cf. A. F. Ryder, História Geral da África, Unesco/MEC/UFScar, vol. IV, 2010, p. 389), após fundar a antiga cidade deIfé, enviou seus diversos filhos em várias direções, para fundar cada um o seu reino.

Mas esta é apenas uma parte da alentada e sábia tradição religiosa que os antigos africanos legaram ao Brasil. A qual, como um todo, goza da proteção constitucional do artigo 5º da Constituição Federal, bem como daquela assim enunciada: “O Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional” (art. 215, parágrafo 1º).

Nei Lopes é autor de, entre outros livros, Kitábu, o livro do saber e do espírito negro-africanos (Ed. Senac-Rio, 2005).

 

Matéria originalmente publicada em: http://neilopes.com.br

Matéria Publicada no Jornal A Tarde do Estado da Bahia

Adalberto Meireles

Sáb , 24/05/2014 às 16:42 | Atualizado em: 24/05/2014 às 16:42

Curta sobre a memória ganha exibição em Cannes

Adalberto Meireles

  • Divulgação

    A atriz Lea Garcia no papel de Jerusa, em cena do curta-metragem

Um filme sobre a velhice e a solidão, com os olhos voltados para a questão da memória e da ancestralidade.  “O Dia de Jerusa”, dirigido pela baiana Viviane Ferreira, tendo à frente do elenco a atriz Lea Garcia, participa da 7ª edição do Festival de Cannes, que será encerrado amanhã no balneário francês. Integra a programação do “Short Film Corner”, um espaço dentro do evento destinado à promoção de curta-metragem.

O filme, com 20 minutos de duração, narra o encontro entre Jerusa (Lea Garcia), uma moradora de um velho sobrado do Bixiga, com a jovem Silvia, interpretada por Débora Marçal, que circula pelo tradicional bairro paulistano fazendo pesquisa de opinião sobre sabão em pó. A história surgiu, conta Viviane, de suas observações do cotidiano, ao circular pelas ruas de São Paulo.

A cineasta conheceu uma senhora que reclamava do comportamento ausente dos filhos. Com um elenco todo negro, ela decidiu “bordar a história amargurada” que ouviu com “valores das relações intergeracionais  que aprendeu no seu terreiro. Aportou-se à memória da população negra, disse,  à oralidade, à transmissão do saber da mais velha para a mais nova e à releitura do saber pela mais nova encantando e orgulhando a mais velha.

Minitelas

Radicada em São Paulo há 10 anos, Viviane conta sobre seus dias em Cannes. O filme foi exibido na última terça-feira, na sala 3 do Short Film Corner, para o público de produtores, distribuidores e realizadores que participam do Marché du Film. Assim como os demais inscritos da mostra, “O Dia de Jerusa” está disponível em uma biblioteca virtual, na qual todos os participantes do Festival de Cannes podem assisti-lo individualmente, em uma das dezenas de minitelas disponíveis no Palais do Festival.

A diretora Viviane Ferreira (de amarelo) observou o cotidiano paulista (Foto: Divulgação)
Soteropolitana de  Coqueiro Grande, um dos bairros que integram a Estrada Velha do Aeroporto, Viviane conta que cresceu entre as matas e águas da fonte de oxum do Terreiro Manso Dandalungua Cocuazenza  e a estrada que leva ao Sítio Santo Antônio.

“Nesses dois quintais aprendi sobre memória e ancestralidade com minha Biza Zuzu e minha avó Noélia, e continuo esse fortalecimento com minha yalorixá Lanqueana de Ogun”, afirma. Mudou-se para São Paulo aos 19 anos, onde fez cinema e direito ao mesmo tempo.

Para Viviane, garantir a presença em Cannes não  foi fácil. A equipe teve a colaboração de várias instituições e de uma rede de amigos para a viabilização de sua permanência no festival. Sobre exibição, ela diz  que a produtora Odun Formação & Produção continua enviando o filme para outros festivais internacionais e nacionais que acontecem até março de 2015. E depois negociará  em canais de TV.

A expectativa  é também mostrar “O Dia de Jerusa” na Bahia, que “será o único lugar onde poderei levar  minhas velhinhas para vê-lo na tela gigante”. Mas ela acrescenta que a equipe ainda não conseguiu garantir articulação para pré-lançamento em Salvador.

 

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